Davos 2026 inicia sob sombra de Trump e crise de identidade do Fórum Econômico Mundial

DAVOS/BRASÍLIA, 19 de Janeiro de 2026 – A 56ª Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial (WEF) começou nesta segunda-feira (19) em Davos, na Suíça, em um momento considerado pelos próprios organizadores como o cenário geopolítico mais complexo desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Sob o tema “Um Espírito de Diálogo”, o encontro que reúne a elite política e empresarial global ocorre sob a expectativa do discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e enfrenta questionamentos sobre sua capacidade de influenciar uma ordem internacional fragmentada.
Diálogo em um mundo fragmentado
A edição de 2026 do Fórum, que segue até sexta-feira (23), prevê a participação de aproximadamente 3.000 pessoas de mais de 130 países. Entre eles, estão cerca de 400 líderes políticos, incluindo quase 65 chefes de Estado e de governo. Nomes como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente argentino Javier Milei, o líder ucraniano Volodymyr Zelenskyy, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o premiê canadense Mark Carney estão entre os confirmados.
No entanto, a sombra do unilateralismo paira sobre os debates. A política “America First” de Donald Trump, que chega a Davos acompanhado de uma grande delegação incluindo secretários de Estado, tem desafiado a ordem baseada em regras. Tensões comerciais, com a ameaça de tarifas dos EUA contra países europeus em meio à disputa pela Groenlândia, e o afastamento de acordos climáticos globais definem o pano de fundo. Uma pesquisa do WEF com conselheiros empresariais revela que 85% deles veem “menos” ou “muito menos” cooperação global hoje, especialmente em comércio e tecnologia.
Presença brasileira: Lula ausente, ministras representam
Pelo quarto ano consecutivo desde o início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparece a Davos. O Planalto informou que o presidente prioriza a agenda interna em ano eleitoral. A representação brasileira de alto escalão ficará a cargo da ministra do Planejamento, Simone Tebet, e da ministra da Gestão e da Inovação dos Serviços Públicos, Esther Dweck.
Simone Tebet participará na quarta-feira (21) do painel “Rompendo o teto de crescimento da América Latina”. Já Esther Dweck co-presidirá, ainda nesta terça-feira (20), uma reunião de alto nível sobre Colaboração Digital Global (GDC) e assinará, na quinta-feira (22), a adesão do Brasil à “First Movers Coalition”, coalizão do WEF para acelerar tecnologias de baixo carbono por meio de compras públicas sustentáveis.
Dados-Chave do Fórum Econômico Mundial 2026
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Período | 19 a 23 de janeiro de 2026 |
| Tema | “Um Espírito de Diálogo” |
| Participantes Estimados | ~3.000 de mais de 130 países |
| Líderes Políticos | ~400, incluindo ~65 chefes de Estado/governo |
| CEOs e Executivos | ~850 dos principais CEOs globais |
| Principal Atrção | Discurso de Donald Trump (EUA) – 21/01 |
| Representação Brasileira | Ministras Simone Tebet (Planejamento) e Esther Dweck (Gestão) |
Crise interna e futuro incerto do Fórum
Além dos desafios externos, o WEF enfrenta uma transição interna crítica. Seu fundador e figura central por mais de cinco décadas, Klaus Schwab, de 87 anos, deixou a presidência em abril de 2025, após uma investigação interna sobre governança. Schwab foi absolvido de irregularidades materiais, mas não retornou. A liderança foi assumida interinamente por Larry Fink, CEO da BlackRock, e André Hoffmann, vice-presidente da Roche.
Esta mudança ocorre em um momento em que analistas questionam a relevância do Fórum. “Para ser bem franco, num sistema em que cada um só pensa em si mesmo, isso não tem razão de existir. É um evento do passado”, afirmou Daniel Woker, ex-embaixador suíço, em uma das reportagens que antecederam o evento. A capacidade de Davos de gerar consensos em um mundo de interesses nacionais conflitantes é posta à prova.
Preocupações econômicas concretas também estarão na mesa. Uma pesquisa com economistas-chefes divulgada pelo WEM na sexta-feira (16) mostrou aumento do temor com uma possível bolha das ações de inteligência artificial e risco crescente de crise da dívida soberana, tanto em mercados desenvolvidos (30% dos entrevistados veem chance) quanto emergentes (47%).
Perguntas Frequentes (FAQ)
Qual é a importância do Fórum de Davos?
O Fórum Econômico Mundial de Davos é o principal encontro informal entre líderes políticos, empresariais e da sociedade civil para discutir tendências e desafios globais. Não toma decisões vinculantes, mas serve como um barômetro das prioridades da elite global e um espaço para negociações de bastidores que podem influenciar políticas e investimentos ao longo do ano.
Por que o presidente Lula não vai a Davos?
Desde o início de seu terceiro mandato, em 2023, o presidente Lula optou por não comparecer pessoalmente a Davos, priorizando a agenda interna. Em 2026, ano de eleição presidencial, ele reforçou que terá poucas viagens internacionais. O Brasil tem sido representado por ministros, como Fernando Haddad (2023) e Alexandre Silveira (2024 e 2025). Este ano, a representação cabe às ministras Simone Tebet e Esther Dweck.
O que se espera do discurso de Donald Trump em Davos?
Espera-se que o presidente americano reforce sua agenda “America First”, defendendo o uso de tarifas comerciais como ferramenta de pressão política e promovendo os EUA como destino de investimentos. Seu tom será analisado como um indicador de se haverá abertura para negociação ou uma postura mais confrontacional com a Europa e outros parceiros ao longo de 2026.
O Fórum de Davos está em crise?
Sim, o Fórum enfrenta uma crise de identidade e relevância. A saída de seu fundador, Klaus Schwab, após uma investigação interna, marca o fim de uma era. Simultaneamente, o avanço do unilateralismo (como a política de Trump) e a fragmentação geopolítica desafiam o modelo multilateral de cooperação que o Fórum sempre defendeu. Muitos questionam se ele ainda é capaz de influenciar a agenda global em um mundo onde grandes potências priorizam seus interesses nacionais.
