Crise no Nepal: Levante da Geração Z derruba governo após censura às redes sociais


Crise no Nepal: Levante da Geração Z derruba governo após censura às redes sociais

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KATHMANDU/NOVA DÉLI, 25 de Janeiro de 2026 – O Nepal, país encravado no Himalaia, mergulhou em uma das suas mais profundas crises políticas em décadas após uma revolta liderada pela juventude que resultou na queda do governo do Partido Comunista do Nepal (PCN). O levante, que começou em setembro de 2025, foi desencadeado pela decisão do governo de bloquear 26 plataformas de redes sociais, incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp e YouTube.

Da censura à insurreição

A medida, justificada como combate a “notícias falsas” e “discurso de ódio”, afetou diretamente cerca de 17 milhões de usuários no país, a maioria adolescentes e jovens. A censura foi sentida como um ataque direto à liberdade de expressão e ao direito de comunicação, mas também cortou um elo vital para milhões de famílias que dependem das redes para se comunicar com parentes que trabalham no exterior.

O que começou como protestos pacíficos contra a censura rapidamente se transformou em um levante generalizado contra a estrutura social e política que mantém o país em uma situação de pobreza generalizada. A juventude, organizada pelas próprias redes que o governo tentou silenciar, usou hashtags como #NepoBabies e #NepoKids para transformar os protestos em um movimento contra os privilégios hereditários da elite política e empresarial.

Principais Fatos da Crise

EventoDescrição
GatilhoBloqueio de 26 redes sociais (Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube) pelo governo do primeiro-ministro K. P. Sharma Oli.
Resposta InicialProtestos pacíficos liderados por estudantes e jovens da Geração Z (Gen Z) em Katmandu e outras cidades.
EscalaçãoForças de segurança abriram fogo contra manifestantes, matando mais de 50 pessoas e ferindo mais de 1.500, segundo dados do Ministério da Saúde.
Alvos dos ProtestosResidências privadas do primeiro-ministro Oli, do presidente Ram Chandra Poudel, do ministro do Interior Ramesh Lekhak, de outros líderes, da Suprema Corte, da sede do Partido Comunista, escolas privadas e o Hotel Hilton de Katmandu.
Resultado PolíticoRenúncia do primeiro-ministro Oli e colapso do governo do PCN. Autoridade real passou para as mãos do Exército, que impôs toque de recolher indefinido na capital.
Contexto de CorrupçãoO Nepal ocupa a posição 110 entre 180 países no Índice de Percepção da Corrupção 2024, com apenas 34 pontos de 100, sendo considerado um dos países mais corruptos da Ásia.

Uma economia frágil e dependente

O Nepal é um Estado sem saída para o mar, altamente dependente de seus dois vizinhos gigantes — a China ao norte e a Índia ao sul — para o seu comércio exterior. A Índia é o principal parceiro comercial, absorvendo mais de 60% do comércio exterior, e controla as rotas de importação de combustíveis, alimentos e medicamentos. Essa dependência concede a Nova Déli uma capacidade permanente de pressão.

Apesar de registrar um crescimento de 4% em 2024, impulsionado pelo turismo, exportações agrícolas e aumento da produção hidrelétrica, o país continua preso a um modelo primário, dependente e profundamente desigual. O crescimento não se traduz em melhorias sustentáveis para a população, pois o governo se encarrega de desviar a maior parte dos recursos.

O que levou ao colapso?

Os protestos também apontam para o nepotismo como mecanismo de poder. O termo “Nepo Babies” viralizou nas redes e nas ruas. É um símbolo da raiva contra um sistema que reproduz privilégios familiares, onde filhos e esposas de dirigentes controlam ministérios, contratos milionários e empresas privadas. Por isso, a queima de empresas e residências ligadas a esses setores é uma forma direta de apontá-los como responsáveis pela crise.

A percepção social desse fenômeno é concreta e visível diariamente nas redes sociais. Os “Nepo Babies”, filhos e parentes de políticos que exibem sua vida de luxo, converteram-se no alvo da indignação popular. Não surpreende, portanto, que durante os protestos tenham sido incendiadas a escola privada da chanceler, esposa do ex-primeiro-ministro Deuba, ou a residência do próprio Oli.

Impacto imediato e incerteza

A queda do primeiro-ministro, longe de acalmar os ânimos, aprofundou a sensação de vazio de poder. A autoridade real passou às mãos do Exército, que foi enviado às ruas para resguardar edifícios oficiais e controlar os protestos. Embora os militares tenham permanecido relativamente passivos no início, nos dias seguintes assumiram o papel de garantes da ordem, marcando uma perigosa militarização da política.

A imposição de um toque de recolher indefinido na capital e a suspensão das aulas em todas as escolas revelam a gravidade da situação. A juventude organizou a mobilização por meio das redes sociais, as mesmas que o governo tentou censurar. O uso de hashtags como #NepoBabies e #NepoKids transformou os protestos em um movimento contra os privilégios hereditários da elite política e empresarial.

Repercussões internacionais e alertas de viagem

A crise levou vários países a emitirem alertas de viagem para o Nepal. O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, por exemplo, emitiu um aviso específico aconselhando cidadãos a evitar todas as manifestações e aglomerações. O governo brasileiro, por meio do site “Smartraveller” do governo australiano, ainda não havia emitido um alerta específico até o fechamento desta edição, mas embaixadas de vários países já recomendam cautela extrema.

Para viajantes, as principais recomendações são:

  • Informar-se sobre manifestações atuais através da mídia local.
  • Evitar todas as manifestações e aglomerações.
  • Seguir rigorosamente as instruções das forças de segurança.
  • Registrar-se na lista de prevenção de crises do Ministério das Relações Exteriores.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que causou a revolta no Nepal?

A causa imediata foi a decisão do governo de bloquear o acesso a 26 plataformas de redes sociais, incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp e YouTube, sob o pretexto de conter “notícias falsas” e “discurso de ódio”. A medida afetou 17 milhões de usuários e foi interpretada como censura pura, servindo de estopim para protestos que evoluíram para uma revolta contra a corrupção sistêmica e o nepotismo.

O governo caiu?

Sim. O governo do Partido Comunista do Nepal (PCN) entrou em colapso após a renúncia do primeiro-ministro K. P. Sharma Oli. A autoridade real passou para as mãos do Exército, que foi enviado às ruas para conter os protestos.

É seguro viajar para o Nepal agora?

Vários governos, incluindo o da Alemanha, emitiram alertas de viagem aconselhando extrema cautela. A situação permanece volátil, com toque de recolher em vigor na capital, Katmandu, e instabilidade política generalizada. A recomendação unânime é adiar viagens não essenciais ao país até que a situação se normalize.

Quais são os riscos para turistas?

Além do risco político direto, há o aumento da criminalidade em meio ao caos. Ataques a prédios governamentais e residências de políticos foram generalizados. A infraestrutura de transporte, incluindo o transporte aéreo, foi severamente afetada. A principal recomendação é seguir as instruções das forças de segurança locais e evitar qualquer deslocamento não essencial.