Caso Banco Master: A maior crise bancária recente e suas consequências

Caso Banco Master: A maior crise bancária recente e suas consequências

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SÃO PAULO, 23 de Janeiro de 2026 – O sistema financeiro brasileiro ainda sente os abalos de um dos maiores escândalos de sua história recente. A liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, e a subsequente queda de sua controlada Will Bank, em janeiro de 2026, expuseram um esquema de fraudes bilionárias, tensões institucionais e um rombo que deve custar ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dezenas de bilhões de reais. O caso, investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, revelou um modelo de negócios insustentável, lastreado em captação agressiva e operações fictícias.

A ascensão e queda do Banco Master

Fundado em 1974 como Máxima Corretora, o banco foi revitalizado a partir de 2018 sob o controle do banqueiro Daniel Vorcaro. Com uma estratégia agressiva, o Master cresceu rapidamente ao oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidades muito acima da média de mercado, chegando a prometer até 180% do CDI. Essa atração de recursos financiou uma expansão em crédito consignado, empréstimos pessoais e investimentos em empresas. Em fevereiro de 2024, o grupo adquiriu o banco digital Will Bank, ampliando sua base para mais de 10 milhões de clientes, muitos no Nordeste. No entanto, por trás do crescimento, investigações apontam para um esquema de pirâmide financeira (Ponzi), onde novos recursos pagavam os rendimentos prometidos aos investidores antigos.

O esquema de fraude bilionária

As investigações da Polícia Federal e relatórios do Banco Central detalham um mecanismo complexo para inflar artificialmente o balanço do banco e desviar recursos. Entre 2023 e 2024, estima-se que cerca de R$ 11,5 bilhões tenham sido movimentados por meio de triangulações. O banco emprestava dinheiro a empresas “laranja”, que aplicavam os recursos em fundos da gestora Reag Investimentos. Estes fundos, por sua vez, compravam ativos de baixo ou nenhum valor real (como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina – Besc) por preços inflados. O dinheiro circulava entre fundos ligados aos mesmos intermediários até chegar aos beneficiários finais, em um circuito fechado que simulava liquidez e saúde financeira.

Principais Fatos e Números do Caso

Evento / DadoDetalhe
Liquidação do Banco MasterDecretada pelo BC em 18 de novembro de 2025.
Liquidação do Will BankDecretada pelo BC em 21 de janeiro de 2026, após descumprir pagamentos à Mastercard.
Valor estimado da fraudeR$ 11,5 bilhões a R$ 12 bilhões.
Clientes afetados (Master + Will)Mais de 13,6 milhões (1,6 milhão no Master e 12 milhões no Will).
Ressarcimento pelo FGC (estimativa)Até R$ 41 bilhões (Master) + R$ 6,3 bilhões (Will). Maior resgate da história do fundo.
Limite de cobertura do FGCAté R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por conglomerado.
Participação no sistema financeiroConglomerado Master detinha 0,57% do ativo total do sistema.
Liquidação da Reag InvestimentosDecretada pelo BC em 15 de janeiro de 2026, por seu papel central no esquema.

A queda em cascata: Will Bank e Reag

Após a liquidação do Master, o Will Bank foi colocado sob Regime de Administração Especial Temporária (RAET), na esperança de uma venda. Negociações com um fundo soberano de Abu Dhabi não avançaram. O fim veio em 19 de janeiro de 2026, quando a fintech descumpriu uma grade de pagamentos de mais de R$ 6 bilhões à Mastercard, que bloqueou suas transações. Sem liquidez e sem comprador, o BC decretou sua liquidação dois dias depois. Paralelamente, a gestora Reag Investimentos, peça-chave na estruturação dos fundos usados no esquema, também foi liquidada pelo BC em 15 de janeiro. Seus fundos, com patrimônio conjunto de R$ 102,4 bilhões, eram usados para simular operações e ocultar beneficiários.

Tensões institucionais e investigações

O caso extrapolou o âmbito financeiro, gerando atritos entre o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal de Contas da União (TCU), o Banco Central e a Polícia Federal. O ministro Dias Toffoli, do STF, assumiu ações judiciais relacionadas ao caso e marcou depoimentos de investigados para os dias 26 e 27 de janeiro. O TCU chegou a abrir uma inspeção sobre a atuação do BC, mas um acordo posterior limitou seu alcance para preservar o sigilo bancário. A Operação Compliance Zero, da PF, já cumpriu mandados de busca, bloqueou bens superiores a R$ 5,7 bilhões e prendeu temporariamente Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. As investigações tratam o esquema como uma organização criminosa sofisticada.

Impacto para os investidores e o sistema

A tarefa de ressarcir os mais de 1,6 milhão de credores do Master e os milhões do Will Bank cabe ao FGC. O fundo já iniciou os pagamentos, que são feitos via aplicativo, limitados a R$ 250 mil por CPF/CNPJ para o conglomerado como um todo. Este será o maior desembolso da história do FGC, testando sua reserva. O episódio levantou debates sobre “risco moral”, onde a garantia do fundo pode ter sido usada como argumento para vender produtos de alto risco, e sobre a necessidade de reforço na regulação e supervisão de bancos de médio porte e gestoras de recursos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Meu dinheiro no Banco Master ou Will Bank está perdido?

Não para a grande maioria dos clientes. Aplicações cobertas pelo FGC (como CDBs, LCIs, LCAs, conta corrente e poupança) serão ressarcidas até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ para todo o conglomerado Master (incluindo o Will Bank). O pagamento é feito diretamente pelo FGC através de seu aplicativo.

Já recebi um valor do FGC pelo Master. Tenho direito a outro pelo Will Bank?

Não, se já tiver recebido o limite de R$ 250 mil referente ao conglomerado Master. O limite é por contribuinte (CPF/CNPJ) e consolida os valores de todas as instituições do mesmo grupo. Se você tinha investimentos em ambas, o ressarcimento total não pode ultrapassar esse teto.

O que aconteceu com os controladores do Banco Master?

Daniel Vorcaro, o controlador, foi preso e é investigado por organização criminosa, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e outros crimes. Seus bens e os de outros ex-administradores foram tornados indisponíveis pela Justiça. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público continuam em andamento.

Por que o caso gerou conflito entre o STF, o TCU e o Banco Central?

O caso levantou questões sobre os limites da autonomia do BC para decretar liquidações, sobre a atuação da supervisão e sobre eventuais interferências políticas. O TCU questionou a decisão do BC, enquanto o STF passou a centralizar ações judiciais devido à complexidade e ao potencial impacto sistêmico, gerando debates sobre competências e prerrogativas institucionais.