Crise no setor de ingressos: erros, falta de transparência e fraudes desafiam fãs e empresas em 2026

SÃO PAULO/BRASIL, 23 de Janeiro de 2026 – O mercado de venda de ingressos para shows e eventos vive um momento de tensão global. Uma combinação de falhas técnicas em plataformas, denúncias de falta de transparência por parte de grandes empresas do setor e um aumento na sofisticação de golpes virtuais está criando uma experiência frustrante para consumidores e desafios regulatórios. Casos recentes no Brasil e no exterior, envolvendo desde Luan Santana até a turnê do BTS, ilustram a dimensão do problema.
Falhas técnicas deixam fãs no prejuízo no Brasil
Um problema no processamento de compras para o show “Registro Histórico” de Luan Santana, marcado para 21 de março na Arena MRV, em Belo Horizonte, resultou em cobranças múltiplas indevidas a centenas de fãs. A venda, realizada pela plataforma Q2 Ingressos na sexta-feira (16/01), esgotou em poucas horas, mas foi marcada por uma instabilidade técnica. Consumidores relataram que, ao tentar finalizar a compra no cartão de crédito, o carrinho expirava em cinco minutos sem confirmação, levando a múltiplas tentativas. Cerca de uma hora depois, todas as tentativas foram faturadas, resultando em alguns casos na cobrança de até dez ingressos na mesma fatura.
Em nota, a Q2 Ingressos afirmou que identificou “uma instabilidade técnica pontual” no início das vendas, que afetou menos de 2% das transações. A empresa garantiu que está entrando em contato com os clientes impactados para oferecer a opção de manter a compra ou solicitar cancelamento e reembolso total (ingressos e taxas). O atendimento para o caso está disponível via WhatsApp exclusivo: 0800 550 0160.
Transparência em xeque: OCU denuncia Ticketmaster por venda do BTS
No cenário internacional, a pressão por transparência também cresce. A Organização de Consumidores e Usuários (OCU) da Espanha denunciou a Ticketmaster perante o Ministério de Consumo do país por falta de transparência e práticas comerciais desleais na preventa das entradas para os concertos do grupo BTS, agendados para 26 e 27 de junho em Madrid.
A principal queixa é que a Ticketmaster anunciou a preventa para o dia 22 de janeiro sem divulgar previamente informações essenciais, como preços por categoria, impostos, tipos de localidades disponíveis (pista, VIP) ou condições de devolução. Apenas após a pressão dos fãs, a empresa anunciou que publicaria os preços no dia 22 e realizaria a preventa no dia 23. A OCU considera que ocultar essas informações viola a lei de defesa do consumidor, pois impede decisões de compra informadas, especialmente em um contexto de alta demanda e pressão temporal. A organização também critica a restrição ao uso apenas de ingressos em formato móvel, sem alternativas impressas, o que pode ser discriminatório.
Fraudes sofisticadas ameaçam o mercado nacional
Paralelamente aos problemas operacionais, a fraude na venda de ingressos se tornou uma ameaça central. Em janeiro, a Polícia Civil de São Paulo deflagrou a “Operação Fear of the Pix” para investigar um esquema de venda de ingressos falsos, voltado principalmente para shows de bandas de rock como Iron Maiden. A investigação, com base no 42º DP (Parque São Lucas), cumpriu mandados de busca no Tatuapé e em Guarulhos.
O golpe funcionava com a criação de sites fraudulentos que imitavam plataformas oficiais, direcionando pagamentos via PIX para contas de empresas de fachada. Em um depoimento, uma vítima relatou ter pago R$ 690 por um ingresso que nunca recebeu. A polícia apreendeu 13 relógios, três veículos de luxo, R$ 11 mil em dinheiro, computadores e documentos. O caso é investigado como associação criminosa para estelionato eletrônico.
Especialistas alertam que a digitalização total das vendas, somada à pressão por compras rápidas, cria um ambiente propício para golpes cada vez mais bem elaborados, que impactam não só o consumidor, mas toda a cadeia econômica dos eventos.
Principais Casos e Reclamações em Destaque
| Caso / Problema | Local / Empresa Envolvida | Status / Reivindicação |
|---|---|---|
| Cobrança múltipla de ingressos | Show do Luan Santana (BH) / Q2 Ingressos | Empresa contacta clientes para reembolso ou manutenção da compra. |
| Falta de transparência em preços e condições | Preventa BTS (Madri) / Ticketmaster Espanha | Denúncia formal da OCU ao Ministério de Consumo espanhol. |
| Fraude com ingressos falsos (site clonado) | Shows de Rock (SP) / Sites fraudulentos | Investigação policial em andamento (“Operação Fear of the Pix”). |
| Cláusulas contratuais abusivas | Vários eventos (Chile) / Ticketmaster Chile | Empresa condenada pela Corte de Apelaciones de Santiago em 2014 a pagar multa e alterar contratos. |
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que fazer se fui cobrado múltiplas vezes por um ingresso, como no caso do Luan Santana?
Segundo o Código de Defesa do Consumidor (CDC), você tem até 7 dias para cancelar compras online com direito a reembolso integral. O primeiro passo é entrar em contato com a plataforma de vendas (no caso, Q2 Ingressos) para solicitar o cancelamento das cobranças indevidas. Paralelamente, entre em contato com o banco emissor do cartão de crédito para contestar as transações duplicadas. A empresa é obrigada a fornecer uma solução.
A Ticketmaster pode não divulgar os preços antes da abertura da venda?
Organizações de defesa do consumidor, como a OCU na Espanha, argumentam que não. A falta de informação prévia sobre preços, taxas e condições essenciais viola o dever de transparência e pode configurar prática comercial desleal, pois impede o consumidor de tomar uma decisão informada. No Brasil, o CDC também prevê a oferta de informações claras e adequadas sobre produtos e serviços.
Como se proteger de sites falsos de venda de ingressos?
Verifique sempre o URL do site, garantindo que é o oficial da casa de shows, do artista ou da plataforma autorizada (como Ticketmaster, Eventim, Sympla). Desconfie de links em anúncios de redes sociais. Prefira pagamentos que ofereçam algum tipo de proteção ao comprador. Em caso de dúvida, consulte as redes sociais oficiais do artista ou do evento para confirmar os canais de venda legítimos.
Quais são meus direitos se um evento for cancelado ou adiado?
Você tem direito ao reembolso integral do valor pago, incluindo taxas de serviço. A empresa não pode reter valores sob a justificativa de “taxas administrativas” não previstas em contrato. Em caso de remarcação, você pode optar por aceitar a nova data ou solicitar o reembolso. Se a mudança causar prejuízos comprovados (como passagens aéreas não reembolsáveis), pode haver direito a uma indenização adicional.
Contexto legal e pressão regulatória
As dificuldades não são novidade no setor. Em um precedente relevante, a Corte de Apelaciones de Santiago, no Chile, condenou a Ticketmaster Chile em 2014 por incluir cláusulas abusivas em seus contratos de adesão, como a que permitia à empresa alterar unilateralmente as condições de uso. A empresa foi multada em 50 UTM e obrigada a eliminar as cláusulas consideradas ilegais.
No Brasil, a atuação do Procon e a aplicação do CDC são os principais instrumentos de defesa. Casos de fraude, como o investigado em São Paulo, também acionam o aparato penal. A tendência é que, com o crescimento do mercado de live entertainment, a pressão por regulação mais clara, transparência das plataformas e segurança nas transações digitais se intensifique tanto no Brasil quanto no exterior.
